O setor portuário global enfrenta um paradoxo: máquinas de última geração são frequentemente coordenadas por decisões baseadas puramente na intuição humana. No Brasil, essa realidade começou a mudar com a ascensão da Loopt, uma startup nacional que está redefinindo a eficiência operacional ao reduzir em 27% os movimentos improdutivos em terminais de contêineres.
A Anatomia da Ineficiência
Em um terminal de grande porte, milhares de movimentações ocorrem diariamente. Tradicionalmente, o posicionamento de cada contêiner no pátio é decidido com base na vivência individual de operadores experientes. No entanto, o cérebro humano não possui a capacidade de processar simultaneamente as milhares de variáveis e dados em tempo real que uma operação moderna exige.
Essa dependência do “feeling” gera um efeito cascata de ineficiências: equipes superdimensionadas, falhas de comunicação e, principalmente, o excesso de movimentos improdutivos — quando uma carga precisa ser deslocada apenas para dar acesso a outra. No Porto de Santos, o impacto financeiro dessas manobras desnecessárias atinge cifras bilionárias anualmente.
IA como Cérebro Operacional: A Solução da Loopt
Diferente de sistemas de gestão convencionais, a tecnologia da Loopt, fundada pelo engenheiro naval João Gutierres, atua como um “motor de otimização”. Ela não substitui os sistemas que o terminal já utiliza, como o YMS (Yard Management System), mas conecta-se a eles para servir como uma camada superior de inteligência.
A Inteligência Artificial processa dados massivos para recomendar a ação estratégica exata. “Esse contêiner aqui é melhor você pegar daqui e colocar ali, porque ele já vai sair depois e você evita um outro movimento improdutivo”, exemplifica Gutierres. Essa precisão cirúrgica transforma a logística de pátio em um jogo de xadrez altamente previsível e eficiente.
Resultados Reais: O Case Ecoporto
Os números validados em operações reais, como no Ecoporto (unidade da EcoRodovias), demonstram o poder da ferramenta:
- Produtividade: Elevação de 21% na capacidade global de movimentação.
- Tempo de Espera: Redução de até 35% no tempo de permanência de caminhões no terminal.
- Fluxo de Veículos: Melhora na disponibilidade de janelas para carregamentos e posicionamentos.
Segundo Robson Luiz Bissani, gerente de Operações do Ecoporto, a IA tornou o fluxo de trabalho mais enxuto e trouxe agilidade direta no atendimento aos veículos.
Sustentabilidade e Agenda ESG
A eficiência promovida pela Loopt ultrapassa a barreira financeira e toca no pilar ambiental. Máquinas pesadas que se movem menos consomem menos combustível fóssil. Como a EcoRodovias é signatária da Agenda 2030, a redução desses movimentos contribui diretamente para as metas de redução de emissão de carbono no Escopo 1. É a tecnologia servindo como aliada direta da descarbonização logística.
O Futuro: IA, Robotização e Maturidade Digital
Apesar do sucesso, o desafio da adoção tecnológica ainda é cultural. Gutierres estima que a maturidade digital do setor portuário brasileiro ainda está em um patamar de 3 a 4 (em uma escala de 0 a 10). No entanto, a trajetória da Loopt — que nasceu de um hackathon da CMA CGM e passou pela validação da Mercosul — indica que o mercado está pronto para evoluir.
O próximo horizonte para a Loopt é a fusão da Inteligência Artificial com a automação robótica. Quando esses motores de otimização passarem a orquestrar frotas de equipamentos autônomos, os terminais brasileiros atingirão um novo patamar de competitividade global.

